Procuradores da Lava Jato usaram vazamentos à imprensa para manipular suspeitos, apontam mensagens

Foto: Reprodução (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Em novos vazamentos de chats do aplicativo Telegram , procuradores da força-tarefa da Operação Lava Jato teriam usado vazamentos à imprensa com o intuito de manipular suspeitos, fazendo-os acreditar que sua denúncia era inevitável, ainda quando não fosse. O objetivo seria intimidar seus alvos para que eles fizessem delações.

A reportagem da série “Vaza Jato” publicada hoje (29) pelo The Intercept Brasil revela que o coordenador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, teria mentido ao negar, em entrevista à BBC em 2017, que integrantes da força-tarefa teriam vazado informações. A publicação mostra que Dallagnol participou de grupos nos quais os vazamentos foram planejados, discutidos e realizados.

Em um deles, o próprio coordenador efetuou o tipo exato de vazamento que ele descartou a possibilidade de identificar.

Em 21 de junho de 2015, o procurador da Lava Jato Orlando Martello enviou a seguinte pergunta ao colega Carlos Fernando Santos Lima, no grupo FT MPF Curitiba 2, que reúne membros da força-tarefa: “qual foi a estratégia de revelar os próximos passos na Eletrobrás etc?”.

Santos Lima disse não saber do que Martello falava, mas afirmou: “meus vazamentos objetivam sempre fazer com que pensem que as investigações são inevitáveis e incentivar a colaboração.”

Conforme a lei das organizações criminosas – que estipulou regras para as delações premiadas -, o acordo só pode ser aceito caso a pessoa tenha colaborado “efetiva e voluntariamente”. No entanto, o procurador afirma aos colegas que usava a imprensa para forjar um ambiente hostil e, com isso, conseguir delações por meio de manipulação.

A conversa ocorreu dois dias depois da 14ª fase da Lava Jato, que era voltada às empreiteiras Odebrecht e Andrade Gutierrez. Os procuradores debateram estratégias para conseguir um acordo de delação com Bernardo Freiburghaus, apontado como operador de propinas da Odebrecht. Freiburghaus acabou escapando da operação, porque havia se mudado para a Suíça em 2014 e já havia contra ele uma ordem de prisão preventiva com alerta da Interpol.

No chat, Santos Lima diz que vazava informações para a imprensa. Além disso, ele insinua que se tratava de uma prática habitual e se refere aos vazamentos no plural: “meus vazamentos”. O comentário do procurador não suscitou qualquer manifestação dos outros integrantes da Lava Jato. No decorrer das conversas, os demais membros do grupo permaneceram calados.

Foto: Reprodução

No mesmo dia, Deltan e Orlando anunciaram no chat que vazaram para repórteres do Estadão, a informação de que os Estados Unidos iriam ajudar a investigar Bernardo, a fim de pressionar o investigado. Eles antecipavam a um jornalista, uma movimentação da investigação. Dallagnol foi o responsável pelo vazamento, como mostra sua conversa com o repórter do jornal revelada na reportagem.

Ainda na conversa, o repórter avisa que a matéria sobre a ajuda dos americanos no caso Odebrecht, ainda não formalizada, seria manchete do Estadão no dia seguinte.

A assessoria de imprensa da Lava Jato descartou que os procuradores tenham vazado informações no caso do Estadão, alegando que a força-tarefa “jamais vazou informações sigilosas para a imprensa, ao contrário do que sugere o questionamento recebido”.

A força-tarefa ainda argumenta que uma informação passada à imprensa deve ser ilegal ou violar uma ordem judicial para ser caracterizada como “vazamento”. Assim, argumenta que o material enviado por Dallagnol ao Estadão não violou, na sua visão, nem a lei nem ordem judicial, e que por isso não pode ser considerado vazamento.

Ainda conforme a reportagem de hoje, os vazamentos dos procuradores não seriam casos isolados. Em 2016, integrantes da força-tarefa da Lava Jato falavam abertamente sobre o uso de “vazamento seletivo” para mídia com a intenção de influenciar e manipular um suposto pedido de liberdade para o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, de acordo com as mensagens obtidas pelo The Intercept Brasil.

O post Procuradores da Lava Jato usaram vazamentos à imprensa para manipular suspeitos, apontam mensagens apareceu primeiro em Bahia Política.